O Pé Diabético: cuidados permanentes

Dr. Eduardo Vinha

O Pé Diabético: cuidados permanentesO pé diabético é uma complicação importante da Diabetes  +  mellitus responsável por Internamentos  +  prolongados e resultando, muitas vezes, na amputação dum membro inferior ou parte dele com as consequências humanas, económicas e sociais daí resultantes.

Para esta complicação contribuem duas situações essenciais: a neuropatia ou doença dos nervos periféricos e a isquemia ou doença das Artéria + s que quando se associam a uma infecção o prognóstico de qualquer lesão nos pés é significativamente agravado.

O aparecimento destas situações está dependente da compensação da diabetes e da presença de outros factores de risco, frequentes na população em geral e em número elevado de doentes diabéticos, como a Hipertensão arterial  + , o aumento das Gorduras  +  do sangue e o Tabaco  + .

A neuropatia faz com que o diabético perca a sensibilidade para estímulos comuns, como a sensibilidade dolorosa (deixa de sentir dores) e a sensibilidade térmica (deixa de sentir o calor), entre outras.

Todos sabemos o que acontece quando usamos um sapato que nos provoca uma bolha ou um calo ou quando nos aproximamos duma fonte de calor. O diabético, perdendo estas sensibilidades, continua a caminhar com uma lesão num pé como nada se passasse ou a aproximar-se dum aquecedor ou a manter o contacto com uma botija de água quente, colocada na cama, sem se aperceber da temperatura elevada.

Por isso surgem com frequência diabéticos com queimaduras ou outras lesões graves, quase sempre com infecção associada, detectadas por acaso por ele ou por alguém que lhe inspeccionou os pés, infelizmente muitas vezes passados vários dias.

A isquemia, originando deficiente irrigação sanguínea, faz com que a pele se torne mais vulnerável a qualquer traumatismo e que a cicatrização duma lesão seja muito mais lenta e muitas vezes dependente duma intervenção cirúrgica que resolva o obstáculo que impede a adequada circulação do sangue arterial no membro inferior. Infelizmente muitas vezes a amputação é o destino final do membro ou de parte dele.

Cerca de 50% das amputações não relacionadas com traumatismos dos membros inferiores são efectuadas em doentes diabéticos e quase sempre precedidas duma lesão, na maioria dos casos provocada pelo sapato. O calçado foi criado para proteger os pés dos traumatismos e das agressões provocadas pelo calor mas, no diabético, quando inadequado pode comportar-se como um verdadeiro "inimigo".

A grande maioria destas amputações poderia ter sido evitada se fossem respeitadas algumas regras fundamentais. A principal arma contra as complicações dos pés dos doentes diabéticos é, por isso, a prevenção que deverá ser usada por todos, pelos profissionais de saúde que lidam com estes doentes, pelos diabéticos e seus familiares ou pelas pessoas que com eles convivem.

Esta prevenção deve ter em consideração importantes pontos: identificação dos pés em risco de lesão, isto é dos que apresentam neuropatia e/ou isquemia; inspecção e exame periódico dos pés, dos sapatos e das meias, em função desse risco; educação e ensino ao doente, aos familiares e aos profissionais de saúde que lidam com diabéticos das normas consideradas essenciais; uso de calçado apropriado; tratamento da patologia não ulcerosa (calos, unhas e deformações).

No diabético em risco é fundamental o seguimento destas recomendações: a lavagem diária dos pés (cuidado com a água muito quente que pode provocar queimaduras) e a secagem cuidadosa, sobretudo entre os dedos e a sua inspecção feita pelo doente ou por alguém que o ajude, em caso de impossibilidade; a inspecção do interior dos sapatos que permite eliminar objectos estranhos que poderão lesar o pé; a não utilização de produtos químicos ou adesivos corrosivos (calicidas) para retirar calosidades que deverão antes ser aparadas por um especialista com formação em cuidados do pé; o corte das unhas a direito e não rentes; a utilização de óleos ou cremes hidratantes para a pele seca, evitando a sua aplicação entre os dedos; a mudança diária das meias, sem costuras ou com elas viradas para fora, grossas e pre-ferencialmente de algodão para aquecer os pés se necessário, evitando as habituais fontes de calor (aquecedores ou botijas de água quente); a informação imediata do médico no caso de surgir uma bolha, fissura ou vermelhão.

O doente diabético deve evitar andar descalço e o calçado, se não houver risco, pode ser escolhido a seu gosto nas lojas habituais, procurando sempre um sapato cómodo no qual o pé se sinta bem. Se, pelo contrário, existir neuropatia e/ou isquemia devem ser respeitadas medidas de precaução extra, em particular se existirem deformações nos pés.

O sapato não deve ser demasiado apertado ou largo, o seu interior deve ser 1 a 2 cm mais comprido do que o pé e a largura igual à largura do pé na sua zona mais larga e, em altura, a biqueira deve ter espaço suficiente para os dedos.

Deve ser de pele macia e, quando novo, comprado no final do dia (quando o pé está mais inchado do que quando nos levantamos da cama) e usado por períodos diários curtos e progressivos até se adaptar de forma adequada ao pé. Por vezes pode estar indicado a utilização de palmilhas adequadas ou mesmo de calçado especial feito por encomenda.

Em conclusão, o doente diabético deve cuidar dos seus pés como a maior parte das senhoras cuidam da cara.

Dr. Eduardo Vinha,
Assistente Graduado de Endocrinologia  +  do Serviço de Endocrinologia,
responsável pela Consulta do Pé Diabético do
Hospital de S. João, Porto (Director: Prof. José Luís Medina)

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