quarta-feira, 30 de Julho de 2014

 



 

 

4% de gravidezes interrompidas por malformação do feto

Há já cerca de 12 anos que o Diagnóstico Pré-natal está disponível no Serviço Regional de Saúde

Data: 04-03-2007


Madalena, assim a vamos chamar, engravidou aos 39 anos. A segunda gravidez, tão desejada quanto a primeira, parecia estar a correr às mil maravilhar e nada fazia prever aquilo que acabaria por acontecer.

Devido à idade materna, 'Madalena' teve rapidamente a indicação do médico assistente para realizar uma análise ao líquido amniótico (aquele que envolve o feto no ventre materno). O objectivo era despistar possíveis malformações ou anomalias ao nível dos cromossomas, algo que é muito mais comum em mães com mais de 35 anos.

A amniocentese foi feita pouco antes das 20 semanas de Gestação  + . O exame foi rápido e nada doloroso. 'Madalena' continuava a viver uma gravidez feliz e aparentemente sem qualquer problema.

Mas cerca de três semanas depois de ter realizado a amniocentese, a notícia chegou. O bebé sofria de uma anomalia cromossómica. Não era um síndrome de Down, mas algo mais grave. O diagnóstico falava de uma trissomia do cromossoma 13, uma desordem genética que dava poucas esperanças de vida à criança depois do nascimento, se até chegasse a nascer.

A única solução apontada pelos médicos foi a interrupção da gravidez. Uma decisão complicada de tomar para uma mãe e um pai a viver um quinto mês de gravidez. Mas pensar na falta de qualidade de vida que aquele feto teria se conseguisse sobreviver depois do parto foi uma das razões que, sempre de maneira angustiada, 'Madalena' aceitou a intervenção.

Passados cerca de dois anos, a dor da perda daquele bebé já não afecta o dia a dia desta família e até já começaram a pensar em tentar novamente uma gravidez. Agora com quase 41 anos e mesmo com a má experiência passada, 'Madalena' afirma que, se engravidar, voltará a fazer uma amniocentese e, antes disso, apostará mesmo em rastreios pré-natais mais sofisticados. Quer que o bebé seja perfeito ou que pelo menos tenha qualidade de vida ao crescer e isso implica que não tenha doenças graves e malformações que hoje já são detectadas mesmo 'in utero'.

Diagnóstico pré-natal Na região há 12 anos

A história de 'Madalena' é apenas uma entre as mais de quatro centenas de mulheres que, nos últimos tempos, têm recorrido anualmente ao diagnóstico pré-natal (DPN) na Região.

Foi em Outubro de 1995 que o Serviço Regional de Saúde começou a fazer a colheita de líquido amniótico. Manuel Sousa Gomes, médico ginecologista-obstetra e responsável pelo DPN no Hospital Central do Funchal  +  recorda que, inicialmente, faziam-se muito poucas amniocenteses. A técnica estava pouco divulgada entre as utentes do Serviço Regional de Saúde e a prática também não era a maior.

Mas, aos poucos, a procura foi aumentando. Em 1996, nos Açores e na Madeira foram feitas 130 amniocenteses. Já três anos depois, só no Hospital Central do Funchal, o total foi de 237 exames. O valor atingiu o seu máximo em 2003, com 471, mas desde então, o Serviço Regional de Saúde tem sido palco para cerca de 400 colheitas anuais de líquido amniótico. O último dado disponível refere-se a 2005, quando se realizaram 413 exames. Este total colocou o Hospital Central do Funchal como uma das 12 unidades do país onde se realizou um número superior a 400 colheitas.

As amniocenteses, explica o responsável, são o exame mais comum no âmbito do DPN. Embora em Portugal já se façam colheitas de vilosidades, de sangue fetal ou outras, a análise do líquido amniótico é a técnica mais fácil e aquela em que os clínicos têm mais prática. Além disso, actualmente os resultados destes exames são hoje mais céleres do que eram inicialmente.

Sousa Gomes refere que, embora se fale na possibilidade da análise ao líquido amniótico começar a ser feita nos laboratórios da Universidade da Madeira, por enquanto esta continua a ser feita em dois laboratórios do continente. Para o laboratório privado 'Professor Amândio Tavares' são enviadas as colheitas de mulheres com idades compreendidas entre os 35 e os 37 (consideradas as de menor risco), enquanto que para o serviço público Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães são enviados todos os outros.

O facto do líquido colhido ser transportado para o continente não tem sido problemático. Manuel Sousa Gomes explica que o líquido é colocado em frascos que depois são selados, devidamente embalados e preparados para as inconveniências do transporte. "Não temos tido perdas, derrames, nem sequer infecções", sublinha o responsável e acrescenta que não tem havido, nos últimos anos, necessidade de repetir qualquer exame.

Depois de enviado o líquido amniótico para os laboratórios parceiros, os resultados demoram entre 10 dias e 3 semanas a chegar. "Nós tranquilizamos as grávidas dizendo que, em média, se ao final de três semanas não tiverem notícias, então não haverá problemas", afirma o responsável.

O exame em si também não é prolongado, nem doloroso. Sousa Gomes refere que demora menos do que uma ecografia. "Da introdução à retirada da agulha, não demora mais do que de dois minutos", sublinha. É claro que o facto de implicar a introdução de uma agulha, assusta a maioria das grávidas, mas no final acabam por concordar e dizer "que não custa nada".

Idade materna é o principal indicador No Serviço Regional de Saúde, o Diagnóstico Pré-natal é totalmente gratuito. A principal indicação para as amniocenteses é a idade materna (a partir dos 35 anos, completos até à data prevista do parto), mas como explica Sousa Gomes pode haver outras indicações para este exame. Situações de doenças génicas anteriores, filhos anteriores com cromossomopatias, pais portadores de anomalias cromossómicas, indicadores ecográficos como a ausência dos ossos do nariz ou o aumento da translucência nucal, assim como resultados derivados de rastreios pré-natais (indicadores bioquímicos), podem levar à necessidade de colheita de líquido amniótico.

Se na análise deste líquido for detectada alguma anomalia cromossómica grave, os pais são confrontados com a indicação para interromper a gravidez. Em 2005, foram 15 as interrupções decorrentes dos resultados da amniocentese. Os valores não são muito elevados e correspondem a entre 3 e 4% das gravidezes vigiadas. Sousa Gomes sublinha ainda que "há que ter em conta que, em algumas destas situações, a análise dos cariótipos estava normal e nós [médicos] decidimos pela interrupção porque a malformação era visível".

Algumas das interrupções resultaram também de diagnósticos de síndrome de Down (Trissomia 21). O responsável refere que, ao longo dos quase 12 anos em que tem feito DPN no Hospital Central do Funchal não conhece nenhum caso em que, mesmo depois de um diagnóstico de Trissomia 21, os pais tenham decidido avançar com a gravidez. Porém, em situações de outras malformações, em que o prognóstico em termos de défice neurológico é reservado, já aconteceu levarem avante com a gravidez. Sousa Gomes acrescenta ainda que até há casos de grávidas que não fazem a amniocentese, mesmo tendo indicação para tal, porque já decidiram que vão aceitar o filho de qualquer maneira.

O médico alerta ainda para o facto de que nem todos os 'maus' resultados das amniocenteses significam que o bebé será deficiente. É o caso das anomalias ao nível dos cromossomas sexuais que podem provocar, a longo prazo, problemas de Infertilidade  + , mas não impedem as pessoas de levarem uma vida normal.

Já relativamente aos riscos de Aborto  +  da amniocentese propriamente dita, Sousa Gomes refere que estes são conhecidos e explicados a todas as grávidas. Afinal, "esta é uma técnica invasiva", sublinha. Porém, o número de perdas consideradas consequentes deste exame (até 14 dias depois da colheita do líquido) tem vindo a diminuir de ano para ano e em 2005 aconteceu apenas um caso. De qualquer forma, o médico admite que "o risco existe e vai continuar a existir".

Apesar do risco inerente e das possibilidades do exame ter um resultado não favorável, Manuel Sousa Gomes afirma que foi "em boa hora que o Diagnóstico Pré-natal foi iniciado na Região".

Sobre os benefícios desta valência o médico é peremptório: "Hoje as pessoas têm cada vez menos filhos e esses têm de ser os príncipes perfeitos e não pode falhar nada. Ter esta possibilidade de, pelo menos ao nível da anomalia cromossómica, poder evitar esta situação, é um ganho incalculável". As 'Madalenas' da Região percebem porquê.

 

Ana Luísa Correia