
Crianças/abusos: Alerta está a 'falhar muito' em Portugal, afirma médica legista
O alerta para abusos sobre crianças e jovens está a falhar muito em Portugal, afirmou à Lusa a médica legista Teresa Magalhães, defendendo que educadores, médicos e polícias têm que estar mais articulados.
Apesar do alerta social que provocam, os abusos, especialmente os sexuais, são muito complexos e, embora os profissionais que lidam com crianças até possam ser capazes de os identificar, não sabem o que fazer ou inibem-se, podem achar que sinalizar um abuso é fazer queixinhas , referiu Teresa Magalhães.
Abuso de crianças e jovens - da suspeita ao diagnóstico , um livro coordenado pela médica legista, está nas livrarias a partir de hoje e vai ser lançado num congresso sobre o tema no dia 27 de março, no Porto, pretendendo desmistificar os receios e dúvidas e destacar a importância de sinalizar e denunciar os abusos.
No capítulo do livro dedicado ao abuso e à Justiça destaca-se a importância de haver uma concordância prática entre a vertente criminal e a da proteção das vítimas, com um mecanismo de triagem dos vários tipos de abuso.
De acordo com um projeto do Observatório Permanente da Adopção citado, este mecanismo poderá ser dirigido pelo Ministério Público com elementos da Polícia Judiciária, do Instituto de Medicina Legal e da Segurança Social.
Para começar, não conhecemos o número exato de casos [de abuso]. Há os que entram pela polícia, há os que entram pela Segurança Social ou pelas Comissões de Proteção de Menores , indicou.
Os vários capítulos, que abordam o tema dos abusos do ponto de vista médico, científico e jurídico, procuram primeiro que tudo dar pistas para ident ificar os vários tipos de abuso, desde o que deixa marcas físicas até ao abuso psicológico , que pode ser muito difícil de diagnosticar .
Não temos soluções genéricas , frisa Teresa Magalhães, destacando que, se por um lado, nem tudo o que se diz que é abuso o é efetivamente , também é verdade que há práticas socialmente aceites que hoje se questionam porque põem em causa a dignidade e a segurança física das crianças, nomeadamente os castigos corporais.
A coberto de ideias como de pequenino se torce o pepino ou se não vai a bem vai a mal , podem praticar-se abusos que podem ter consequências graves e até fatais , referiu também Teresa Magalhães à agência Lusa.
Há outras formas de educar sem ser pela violência , frisou, acrescentando que é preciso parar com a bola de neve que faz com que uma criança abusada possa em adulto continuar a ser uma vítima ou a tornar-se ela própria um abusador.
Embora os abusos sexuais, especialmente os fisicamente intrusivos , continuem a ser os que têm consequências mais graves no desenvolvimento das crianças e mais visibilidade social, há formas de abuso como a exploração pelo trabalho ou pela mendicidade que merecem uma atenção e censura que ainda não têm.
Abuso de crianças e jovens , da editora Lidel, é mais dirigido aos profissionais que lidam com crianças, mas Teresa Magalhães prepara um volume que procurará levar a mesma mensagem, mas de forma mais simples , à população em geral.