quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

 


Alcoolismo em Portugal: ameaça para a saúde pública






Os últimos dados, registados pelos Inquéritos Nacionais ao Consumo de Substâncias Psicoactivas na População Geral Portugal, realizados em 2001 e 2007 pelo Instituto da Droga e Toxicodependência, traçam um cenário negro do alcoolismo em Portugal. Em seis anos, o consumo aumentou 3,5 por cento, de 75,6 em 2001 para 79,1 em 2007.

É um gravíssimo problema de saúde pública, com impactos severos na saúde especialmente da dos jovens com idades mais baixas , afirma João Goulão, presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência, para quem Portugal sempre foi um país de consumo exagerado, mas sem grandes bebedeiras durante a semana .

Este padrão de consumo tem sofrido alterações significativas nos últimos anos, assemelhando-se agora a um consumo nórdico, semelhante a países como Noruega, Suécia ou Dinamarca. Caracteriza-se pelo consumo de grandes quantidades de álcool ao fim-de--semana, com relativa abstinência durante a semana , explicou João Goulão, referindo não existir uma explicação científica para esta alteração no padrão de consumo .

A cerveja e as bebidas espirituosas, através de combinações explosivas em forma de shots, são as bebidas mais consumidas pelos jovens. Em situações de excesso de consumo pontual, muito característico das festividades, o resultado costuma ser uma valente ressaca. Apesar das inúmeras mezinhas e soluções existentes no mercado, o melhor remédio é mesmo o tempo como concluíram vários estudos científicos sobre a matéria.

CONSUMO ENTRE JOVENS AUMENTA 10%

Na camada mais jovem (15-17 anos) da população inquirida, 40% confessa ter-se iniciado no consumo de bebidas alcoólicas em 2007, o que significa um aumento de 10% em relação a 2001. Dado preocupante é a percepção do perigo por parte destes jovens. Cerca de 20% atribui pouco risco ao consumo de cinco ou mais bebidas num só fim-de-semana. Até aos 18, é o próprio organismo que não está amadurecido, como o fígado. Todos os fins-de-semana existem casos de comas alcoólicos nos hospitais , constata João Goulão, presidente do IDT.

MILHARES NAS URGÊNCIAS

Na Queima das Fitas de Coimbra, estudantes e foliões ingerem milhares de litros de bebidas alcoólicas. O resultado deste excesso é a lotação das Urgências hospitalares. Milhares apresentam-se com quantidades de álcool no sangue bastante superiores ao permitido por lei. Um dos casos registados este ano, um jovem tinha 4gr de álcool por litro de sangue.

DISCURSO DIRECTO

PAIS MAIS ATENTOS AOS FILHOS ,João Goulão, Pres. do Inst. da Droga e Toxicodependência

Correio da Manhã Como se combate o problema do alcoolismo em Portugal?

João Goulão As campanhas de grande difusão revelam-se ineficazes e até contra-producentes. Temos de intervir em grupos bem identificados, como filhos de alcoólicos ou toxicodependentes, e nas grandes concentrações como festivais de Verão e Queima das Fitas.

E agir de que forma?

Através da identificação de um líder que possa influenciar o comportamento dos seus pares.

Uma solução semelhante à Lei do Tabaco poderia ter sucesso?

Penso que seria positivo, mas teria de ser acompanhada por uma fiscalização eficaz para evitar o descrédito. Também defendemos o aumento da idade para a aquisição de bebidas alcoólicas dos actuais 16 anos para os 18.

Qual o papel dos pais?

Nesta matéria há uma grande desresponsabilização dos pais e encarregados de educação. Devem ser mais atentos aos filhos, em especial no que fazem nas suas saídas nocturnas. É necessário reeducar os educadores e também quem vende as bebidas alcoólicas.

O MEU CASO: JOSÉ A.

CONSEGUI SAIR DO FUNDO DO POÇO

O consumo de álcool em excesso e de forma compulsiva ia tramando a vida a José A., de 44 anos. Felizmente não se deixou vergar pelos efeitos negativos das bebidas alcoólicas porque soube encontrar as pessoas certas no momento ideal .

José afirma ao CM que nem sequer começou a beber muito cedo aos 25 anos mas a situação complicou-se depois de ter casado, muito por culpa de amigos que tinham por hábito organizar grandes jantaradas e festas pela noite dentro .

Do beber por prazer até ao vício foi um pequeno passo houve dias em que bebia uma grade de cerveja e várias garrafas de vinho .

Vivi situações muito complicadas em que perdia o controlo de tudo. Quando me apercebi que estava seriamente doente e que a cura já não dependia só da minha força de vontade em deixar de beber, tive, pelo menos, o bom senso de procurar ajuda nos locais certos , adianta José que frequentou reuniões de alcoólicos anónimos em Coimbra e foi acompanhado por um psiquiatra. Estive no fundo do poço, mas consegui ter forças e sair de lá , refere o ex-alcoólico que para a sua recuperação contou com a ajuda preciosa e determinante da esposa, que soube acompanhar o problema e lhe apontou o caminho certo .

Hoje, quatro anos depois de ter sido dado como recuperado pelos médicos, José sente-se como um homem que conseguiu ultrapassar uma montanha de problemas que tem desgraçado muitas famílias . Por isso, olha para o álcool como uma coisa do passado .

MORTE NA ESTRADA

Em 2007, o Plano Nacional de Saúde revelou 305 mortos por acidentes de viação atribuídos ao álcool

EUROPA LIDERA

AEuropa é a região do Mundo com consumo mais elevado de álcool, com cerca de 11 litros per capita

JOVENS MORREM MAIS

Na União Europeia, o álcool é responsável pela morte anual de 195 mil pessoas, das quais 30 por cento são homens